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Maximizando valor – Que lições podemos extrair dos eventos da Vale, Boeing e de outras companhias?

“Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades” (Stan Lee – tio Ben)

Que lições podemos extrair dos eventos da Vale, Boeing e de outras companhias?

Em 1912, o RMS Titanic era o maior navio de passageiros até então construído. Era visto
como impossível de afundar devido ao seu design e qualidade dos materiais utilizados.
Entretanto, como muitas vezes ainda acontece, a legislação vigente estava defasada e a
embarcação era quatro vezes maior do que se previa em lei. O número obrigatório de botes
salva-vidas se limitava a 16, suficiente para menos de um terço da capacidade de
passageiros e tripulantes a bordo. A tragédia do Titanic tirou a vida de mais de 1.500
pessoas.

A White Star Line, companhia de transporte marítimo responsável pelo RMS Titanic, estava
em conformidade com a legislação vigente da época. Porém, possuía plena consciência de
que seria questão de tempo para que a lei evoluísse. Tanto que existia no projeto original
espaço para os botes necessários para atender toda a capacidade do navio.

Contudo, optou deliberadamente por não tomar uma atitude conservadora. Existem várias
versões do porquê: arrogância ao não acreditar que o navio poderia afundar, o custo dos
botes, a obstrução da vista do mar devido aos botes alocados no convés ou simplesmente
porque a lei não obrigava.

Além do financeiro: ESG

ESG é o acrônimo em inglês para Meio Ambiente, Social e Governança. Muitos investidores
adotaram o ESG investing ao focar em companhias que respeitam esses três fatores além
dos critérios financeiros.

Mas o que entendemos por estes riscos?

● Meio ambiente: são negócios que têm impacto direto ou potencial no ar, terra, água,
ecossistemas e saúde. As companhias devem se esforçar para prevenir e reduzir
as suas emissões e o impacto ambiental de suas atividades no clima.
Além disso, precisam documentar e dar publicidade de seus esforços.

● Social: impacto que as companhias geram na sociedade. Desse modo, devem
promover ações para a segurança, saúde no ambiente de trabalho, melhora das
relações pessoais e do foco nos direitos humanos e para a integridade e segurança
de seus produtos.

● Governança: como as companhias são geridas em relação à imagem, diversidade,
gestão de risco, remuneração dos executivos e responsabilidade do conselho de
administração em proteger os direitos dos acionistas. Além disso, busca promover a
divulgação adequada das informações corporativas.

Existe um certo exagero no que se diz respeito ao ESG investing. O ESG não é somente
uma questão de convicções pessoais, mas principalmente financeira. Nosso ponto aqui é
que as companhias que norteiam suas ações e investimentos utilizando estes fatores são
menos suscetíveis a eventos indesejáveis, como os que ocorreram com a Boeing ou a Vale.

Em teoria, as empresas deveriam adotar decisões baseadas em dois pilares fundamentais:
cumprimento da legislação e responsabilidade social e ambiental. Por último, maximizar o
retorno para o acionista utilizando esses dois pilares como conjunto de restrições. A questão
mais difícil sobre essa equação de maximização é que muitas vezes os critérios são
subjetivos. Além disso, os seres humanos são muito suscetíveis a falhas, sejam elas
motivadas por ignorância, medo ou ganância.

Tragédia de Mariana

São vastos os exemplos que demonstram que os problemas ainda persistem na vida das
empresas. Na tragédia em Mariana (MG), um rompimento de barragem fez com que a Vale
e a BHP fossem responsáveis por um dos maiores desastres ambientais brasileiros e com
impactos econômicos nas pessoas e nas próprias companhias.

Ainda que a Vale publicamente enfatizasse a importância de isso não voltar a acontecer,
pouco tempo depois, a empresa estava novamente nos noticiários. Agora, devido ao
vazamento em Brumadinho (MG). Desta vez, além dos prejuízos ambientais e econômicos,
centenas de vidas foram perdidas.

737-Max da Boeing

Outro exemplo foi o desenrolar dos fatos envolvendo o 737-Max da Boeing. Menos de seis
meses após o acidente com o Voo Lion Air 610, a companhia voltou aos noticiários com o
voo 302 da Ethiopian Airlines.

A investigação revelou descobertas inacreditáveis, como funcionários responsáveis por
testar o avião reportarem que não voariam com a família em um Max ou que se valeram de
subterfúgios para convencer a Federal Aviation Administration (FAA) que a certificação da
nova aeronave não precisava de treinamento em simuladores de voo.

A alteração das características aerodinâmicas do 737 eram conhecidas e os engenheiros da
empresa contornaram o problema com adição do MCAS, sistema computadorizado que
“corrige” a trajetória de voo quando entende que o piloto está errado. O fato é que a Boeing
deliberadamente omitiu esse fato, pois tanto o cronograma de certificação quanto as
condições comerciais afetariam o resultado da companhia.

A Boeing perdeu mais de 25% do seu valor de mercado. Mais importante do que isso,
perdeu credibilidade com os passageiros, empresas, fornecedores e legislador. A falta de
zelo dos executivos maculou um histórico de mais de 50 anos de serviço de uma aeronave
considerada um benchmark na indústria e responsável por um terço do faturamento da
empresa. No entanto, o “pacote de saída” do ex-CEO da Boeing foi de USD 62 milhões.

ESG investing na redução de impactos financeiros

O fato é: exemplos como esses evidenciam que a decisão de adotar os critérios ESG mitiga
eventos de extremos que destroem valor para os investidores. Ou seja, parece existir
evidência que o ESG agrega valor aos acionistas no longo prazo.

Algumas indústrias extrativas provavelmente nunca se enquadrarão nas regras de certos
investidores. No nosso caso, não somos radicais neste aspecto. Porém, as empresas
precisam se esforçar para atender, dentro do possível, as três vertentes do ESG.

A legislação impõe as condições mínimas para as companhias. Mas com o ESG, são os
acionistas que voluntariamente definem o limite máximo possível para suas atividades. Nos
valemos do pragmatismo no entendimento de que a empresa está atendendo da melhor
forma aos critérios e, ao mesmo tempo, maximizando seu valor no tempo.

Acreditamos que alguns administradores, muitas vezes, estão focados no resultado de curto
prazo, fazendo com que negligenciem alguns riscos. Além da adoção do ESG, nossa
sugestão seria uma valorização dos compliances das empresas. O CCO deveria ocupar a
mesma posição hierárquica que o CEO, respondendo diretamente ao Conselho de
Administração, que teria o papel de recomendar ações de longo prazo que melhor
representem os interesses dos acionistas.

Ao responder ao conselho, o CCO terá dois efeitos práticos: isenção na análise de risco de
ações tomadas pelo CEO e a responsabilização do Conselho de Administração.

As coisas dão errado! Não porque não evitamos ou não queremos, mas porque
simplesmente acontecem. Em última instância, cabe sempre ao acionista à conta. Quando
isso acontece, nada mais justo saber ao certo quem deu a última palavra, o porquê e se foi
feito no melhor interesse da companhia e dos acionistas.

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